Deixem as crianças brincar!
Vivemos numa era caracterizada por uma revolução tecnológica que tem marcado a forma como olhamos, interpretamos e pensamos o mundo. Esta mudança tem-se refletido nos diferentes setores da sociedade, onde se assiste a uma crescente abertura crítica, ao questionamento e à expressão de diferentes ideias e perspetivas. Este novo contexto tem-nos levado a repensar valores, comportamentos e formas de agir que, durante muito tempo, foram encarados como naturais e adquiridos.
A Educação, sendo um dos pilares da sociedade, tem também atravessado um período de reflexão e transformação, levando-nos a questionar algumas práticas e modelos tradicionais que foram considerados como essenciais. Tem-se procurado, por isso, adaptar a forma como educamos às novas necessidades e desafios. Contudo, esta transformação levanta também uma questão importante: Será que, ao tentar acompanhar a evolução dos tempos, não estaremos, por vezes, a desvalorizar aquilo que era essencial?
Por exemplo, o brincar tem um papel central no desenvolvimento infantil e na primeira infância, no entanto, tem sido colocado em segundo plano como se fosse algo rudimentar e sem significado.
Os próprios documentos orientadores da prática pedagógica entram em conflito quando, por um lado, as Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar (2016), referem o brincar como uma atividade espontânea que corresponde a um interesse intrínseco que se caracteriza pelo prazer, liberdade de ação, imaginação e exploração. Adiciona ainda que é através do brincar que a criança exprime a sua personalidade, desenvolve a curiosidade e a criatividade, estabelece relações entre aprendizagens, assume responsabilidades, aperfeiçoa as suas capacidades relacionais e otimiza competências relacionadas com a resolução de problemas (OCEPE, 2016).
Por outro lado, o 1.º Ciclo do Ensino Básico apresenta um currículo exigente onde se prevê um horário semanal de vinte e cinco horas, distribuídas por cinco horas diárias. No período da manhã, têm trinta minutos de intervalo e apenas ao almoço contam com uma hora e trinta minutos. Assim, a realidade outrora conhecida pela criança como flexível e “livre” é substituída por uma rotina sedentária marcada por métodos tradicionais de ensino. Neste âmbito, Carlos Neto defende que quanto mais tempo a criança tem de atividade lúdica e física no recreio, maior capacidade de concentração tem na sala de aula, além de permitir adquirir ferramentas de resolução de problemas e tomada de decisões e desenvolver a capacidade percetiva em relação ao espaço físico e em relação aos outros. Indica ainda que as crianças devem ter mais oportunidades para explorar o espaço exterior, correr riscos moderados e descobrir os seus próprios limites (Carlos Neto, 2026).
É, por isso, urgente repensar as escolas, as práticas pedagógicas, os recreios e a forma como encaramos cada um destes elementos. Assim, importa, em primeiro lugar, reconhecer o brincar como uma atividade rica, estimulante e fundamental para o desenvolvimento da criança, integrando-o nos diferentes contextos da vida escolar. É igualmente necessária uma ação pedagógica que privilegie a construção ativa do próprio saber, através de dinâmicas ativas, interativas e participativas. A par do referido, também o recreio, conforme destaca Carlos Neto, além de ser adequado às diferentes faixas etárias, deve ser estimulante e desafiador, por forma a ser também promotor de aprendizagem. Já às escolas cabe acompanhar estas mudanças e delinear um projeto curricular que valorize o brincar, a participação ativa e a aprendizagem através da experiência.
Contudo, a transformação da Educação não depende apenas da escola e dos profissionais de educação. Também o Ministério da Educação assume um papel fundamental na definição de políticas, orientações e condições que influenciam a forma como a sociedade encara a infância, a escola e o processo educativo. Torna-se, por isso, essencial que as políticas perspetivem as necessidades das crianças, e as exigências do mundo atual.
Por sua vez, as famílias têm também um papel ativo na promoção do brincar, não devendo ser algo circunscrito ao ambiente escolar. É, por isso, preponderante que reconheçam o brincar como uma necessidade da criança e não como uma ocupação ou entretenimento. É essencial que, além do horário escolar, seja contemplado tempo livre para brincar, explorar, imaginar, criar e conviver, dando espaço à autonomia, à descoberta e ao desenvolvimento sem pressas, pressões e/ou sobrecargas de atividades.
Nesse sentido, as escolas, as famílias, os centros de decisão política e a sociedade devem assumir uma responsabilidade partilhada na construção de uma educação mais ajustada ao mundo atual, promovendo a formação de cidadãos livres, autónomos, responsáveis, participativos, conscientes dos valores democráticos e críticos (Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (2017).
Educar não é apenas preparar para a vida, é também criar tempo, espaço e oportunidades para que as crianças possam simplesmente ser crianças!

